Acredito que pessoas esclarecidas não precisam, necessariamente, viver determinada situação para entendê-la.
Hoje de manhã levei minha filha para conhecer o acampamento dos professores em frente à assembleia porque para mim uma conversa com um acampado que não se rende e luta pelos seus direitos e pela valorização da sociedade tem muito mais a acrescentar na formação dela do que uma conversa com um representante do povo, que diz que é um absurdo pagar a quem não trabalhou com o dinheiro do contribuinte, mas que não considera um absurdo usar esse dinheiro para veicular nota de esclarecimento (tendenciosa) na TV. Ela ficou impressionada, mas valeu. É a verdade, não é fala mansa na mídia. E desde pequena ela sabe o valor da educação e da luta.
É fácil acusar o outro de radical quando no fim do dia a gente volta pra casa, dorme em uma cama quentinha, tem alimentação e lazer garantidos e o outro, o radical, não tem nem o que pôr na mesa e dorme no frio.
Seria interessante então que as pessoas pelo menos tentassem se colocar no lugar do professor.
Você, que está lendo esse comentário agora, imagine a seguinte situação hipotética: se você estivesse trabalhando já há anos sem receber o mínimo estipulado por lei, aguentando um trabalho que não é fácil, que requer do físico e do intelecto. Se finalmente uma lei obrigasse a te pagarem o mínimo e o teu “patrão” dissesse:
“Muito bem, você vai ter um aumento (mentira, é o mínimo estabelecido por lei), mas é o seguinte: vou te tirar teu vale transporte, teu vale alimentação, a creche dos teus filhos pequenos, e a tua gratificação por ter feito uma especialização/mestrado/doutorado. Aquele serviço extra que você faz todo mês e ganha 40, eu vou passar pra 25, mas não se preocupe, voltarei aos 40, parcelando. Acredite em mim.”
Ao fazer as contas, você percebe que o “aumento” que o patrão te deu foi feito a partir do dinheiro que ele economizou tirando o que você já tinha antes.
O que você faria? Ia por um acaso pensar “Ah, nossa, que legal, quanta coisa eu conquistei!”
Não, não é mesmo? E sabe por que você não pensaria isso? Porque ninguém em sã consciência acharia isso vantagem.
Enquanto isso, em um jantar com amigos, seu lindo ‘patrão’ diz: “Aquele folgado…acha que pode me deixar na mão? Quero ver se ele vai continuar assim revoltado quando eu cortar (mesmo que a lei proíba) o salário dele. Vai voltar que nem um rato! Enquanto isso, farei um terrorismo dizendo que vou chamar outro pra fazer o que ele faz. Vai ter que aceitar e é minha proposta (indecente) final! Afinal de contas economizei quase um bilhão, mas sabe…não acho que vale à pena pagá-lo…”
Isso para você é dialogar?
Então, amigos leitores, sei que não dá para comparar exatamente como gostaria, mas coloquem-se no lugar do professor. Por que vocês acham que ele deve voltar sendo humilhado desta forma, sem ter seus anos de estudo valorizados?
Professor exerce uma profissão importantíssima e básica, tem que ser remunerado. Por que professor não pode ter carro? Viajar? Por que professor tem que ser voluntário? Para isso existe o “Amigos da escola”.
E não pensem que os professores não pensam nos alunos, porque se não pensassem, não estariam aguentando desde 2008.
Por que vocês acham que há pessoas que são professores? Com certeza, não é pelo salário, mas porque amam o que fazem, seus alunos, sua escola e sua comunidade, então, por favor, parem de falar que professor não pensa no aluno.
E mais, acho quem não valoriza o professor, não pode valorizar a Educação. Simples assim.